quarta-feira, outubro 14, 2009

E no entanto, há as que teimam em ferir os olhos e a alma como um sol perigosamente próximo. Um exemplo. E faça-se erguer o volume à altura de as suas chamas.
E, se tivesse que explicar
algo acerca de mim,
se houvesse algo, alguma vez,
que tivesse que ser explicado
aqui, ou noutro lugar
em que o desafio serve de estímulo
temporário
à ilusão
de agir,
em poucas palavras
tentaria dizer
as muitas palavras
que se iriam formar
em torno das palavras
que o não sabem dizer.

Sucinta e fugaz melodia,
aquela de tantas músicas
sempre diferente e a mesma,
uma que convida a acompanhar
o acompanhamento que é essa melodia
no seu convidar-nos a acompanhar,
aquele som que tinge de atenção
o coração que era latente
no vago latejar do seu tempo,
nuvem fria sob o sol quente,
sim, essa melodia que sopra
e destapa a nudez, o sentir,
faz lembrar aquele casamento
da ideia de ser - não poder -
com o misto de querer e tentar
- e sofrer - .

Sons na mente, solene projecto;
como qualquer melodia, mente.
Um trajecto perene,
o ocaso.
O cérebro,
um corredor de distâncias
veloz na partida
e rápido a cansar-se.
E assim castelo
se sucedeu a castelo
num reino de cartas
sem remetente,
que é o nicho do sonho,
o sonho de um nicho,
sonhos e nichos,
confusos,
difusos,
desusos.

Me abstenho de novo de ver
- abro os olhos -
e a noite é pálida como uma criança,
e o dia é tórrido como sempre foi,
e andar cansa como qualquer dança
à melodia que cessa e avança
pela orquestra de não haver tema,
pelo horizonte de aqui
e os traços rasgados de ali,
longe como os nervos perto,
um longe asfixiante,
cortante,
como a navalha
que estralhaça o mapa.
- "Poisa lá a mala...
É hora de desistir outra vez."
O desertar à missão
que é o deserto,
sempre perto

e a languidez arenosa
de perceber que das notas,
que do requinte do trecho
se espalha ao vento a beleza,
ficando um só tinir oco
que é informação
vestindo uma túnica
proporcional
e seca.

Do mistério da miragem,
da complexidade do novo,
a mera ortogonalidade
e um sabor a sangue,
pouco.

sábado, agosto 29, 2009

an inner trial
liberation of the presence
does but provide frail contents
and the colors dissipate
torn photograph
thin arms stretching their hunger
from within the bars within
...love's sentence...
the heartbeat, pounding
the rhythm of yearning
aging rhythms of life
sound and anxiety
oh, suspiration
the lesser smile of acceptance
flapping doves high above
grace over the turmoil
when the meaning fades
factories shutdown for the night
clouds are shades in the night sky
pollution disperses slightly
the eyes sleep
soul bathing in a puddle
swamp of the persona
remainder of coffees
and unsure will

sexta-feira, julho 03, 2009

Retorno à grandeza;
reviver a grandeza;
ter algo em que firmar um encosto à turbulência do presente.
As glórias já sonhadas,
do ontem um hoje.
Acreditar ou desacreditar?
Dilemas do dia, dilemas da noite.
O tempo que passa no peito.
Tacteando o subconsciente,
à consciência penando,
dorme-se de viver,
sofre-se de dormir;
não sei se ceda à luta,
se trave outra,
ou se ceda, simplesmente.
Morre-se lentamente
neste templo inacabado
em que almejava adorar a uma entidade indefinida,
e em cuja indefinição uma vez mais
perdi a imagem, perdi a visão.
Por recurso último, as tais obras antigas,
estátuas de estética
e de pedra.
Ó, alma hoje galeria,
que gládio é esse
que empunhais tão deserta
e só?
Firme dessa conquista,
como se disso dependesse a tua própria memória,
o teu próprio ser,
e como se houvesse alguém, dessa maneira,
que te visse ou sentisse roçá-lo,
acutilante como uma lâmina.
Marcos na estrada,
até que esta acabe
ou o burro se canse.

quinta-feira, julho 02, 2009

E em renovado tributo a uma obra de arte ímpar na história do cinema, deixo uma versão preliminar da parte final do script que em nada compromete a sua grandeza épica, pecando apenas provavelmente, na visão de Milius, por ser demasiado explícito face à cadência que ele ambicionara - uma de silêncio a reforçar o contorno estético de um conteúdo profundo e que servisse de mote à reflexão e à introspecção.

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Holding his father’s broken sword, moving up in a swift arc and down, chopping into Thulsa Doom’s neck and shoulder...

Doom sinks to his knees.

«You would kill your -- father??»

He withdraws the blade and wheels it down with another mighty chop -- and another.

Each blow shakes the crowd and drives them back.

He pulls back the head of Thulsa Doom and the body falls back, sliding down the stairs. He stands full on, looking down on the thousands of lights, the head in one hand, his father’s broken sword in the other. Silence.

Conan (voice over) : «He was right -- the answer was not in the blade but in the man... If my father was the light of day -- Thulsa Doom was my night...»

He sits on the steps and watches as the lines form myriad patterns of light far below him.

Conan (voice over) : «They were his children and now they are like so many orphans... but like myself -- they are free.»

quinta-feira, junho 18, 2009

Há como que duas margens: atravessando a ponte, enredamos por sequências de imagens que como lianas fazem baloiçar. A oscilação de ser, uma vida mental de pesquisa e diluição. Onde um grande peso desce e esmaga a noção de realidade, subvertendo os mais recentes planos por articular. Enquanto houver fantasia, enquanto houver sons e côres, a alma recatada subsiste e obedece. Servo temporário do apelo escondido à sombra da imaginação, o caçador furtivo habita a ilha deserta que há no outro lado de um rio.

Palette e mistura

Glória vã na fé,
vã fé na descrença,
sabor a desavença,
açúcar no café,

palmilho incerteza
sem saber o porquê
do poema que se lê
debruçado na mesa

que tem pernas em vê;
inspiração que retorna
sem que haja para o quê;

sem que haja para um onde,
abstracção que se entorna
no mistério que ela esconde.

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Tinto e desafio

De absurda direcção
escreve-se hoje o caminho;
da côr do copo de vinho
tinge-se o coração.

Tudo aquilo que falta
o Adamastor se soergue;
do mar imenso o icebergue,
um frio de alma que assalta

e em silêncio se exalta
co' o marujo sem rumo;
e o mar azul sobressalta

à luz trémula da vida
a viagem sem aprumo
e o barco de côr garrida.

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Tempestade e bonança

Do azul perpétuo
os mares revoltos;
cabelos soltos
na peça em que actuo.

A sede é de Roma,
e disto e daquilo,
o viscoso do Nilo,
de Veneza o aroma,

paisagens que a mente
desenha a côr quente
no cenário que traça.

Quando a tarde passa
deixa a brisa, rente
ao corpo em alma ausente.

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Ser e não-ser

Um desvio pela maresia;
de Norte ou Sul insciente,
é de novo intermitente
a estrada, que embacia.

Nuvens e soalho,
ponto e contraponto,
ora esperto, ora tonto,
cartas de um baralho -

renasce a antiga cruzada,
a pessoa em morna dança
numa certa encruzilhada

que jamais é consumada;
consciência que se entrança
em seu torno, sem ser nada.

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Somatório

Após sobrevoar vestígios de maré, poisa no parapeito da alma a noção matemática de que há beleza na solução mais sucinta e simples possível. E nisto a equação ondulada que rege as formas faz também sorrir, levemente, as vibrações implícitas. Como uma flauta que trina persuasora uma melodia nocturna, à qual recaio em fascínio. Contemplo, silente como uma fórmula.

quarta-feira, maio 06, 2009

Revisitando sonhos antigos e o espaço de sempre para os perder, sorrindo levemente a mágoa esse embalo. Estas ruas cinzentas e desertas mais não que a casa de campo, e o meu estar nelas a rede presa à árvore só. Emoção reciclada, outra palavra para poesia, estação transitória em que o som esbatido da dôr é já de um simples triste, estrada pontilhada de folhas amarelas. A velha melancolia, instalando-se na mente como a brisa se encosta ao corpo quente, aligeirando o cinzento dessa estrada e arrefecendo essa página da viagem. Sem saber por onde atalhar, coberto de existencialismos fora de época num hoje em que a norma é a de existir, procura-se dispersar a passadas a consciência, mãe severa do sofrimento. Esbate-se o brilho das pedras duras, o deambular por entre elas servindo de confirmação da passagem. Os dias e a complicação cosem-se e descosem-se, sem porém que se dê por remendado aquele último buraco por onde vem escoando a esperança. Alma que falha em se sintetizar corpo; significado falho; desnorte. Onde eram laivos de sonho, é na emoção um grande ponto de interrogação. Neste lapso de reflexão jaz hoje parte da verdade, onde amanhã o entusiasmo traçará, ainda que brevemente, novo percurso híbrido e inconstante de medo e de vida. Mas pagando a factura, nos nervos, no coração, nos sonhos interrompidos, daquelas largas forças que em rigor não possuía, e a que no entanto apelava persistentemente, delas preenchendo o carácter, tentando iludir a realidade, tentando iludir a solidão. Essa avassaladora solidão, a qual quão mais profundamente se tenta ignorar, mais nos agride quando vem à superfície, como um enorme recipiente cheio de ar que se tentasse submergir.

Arde a floresta e suas côres. Um nenúfar poisa sobre o reflexo impressionista disso tudo, beleza diluída no turvo fluxo do que passa. 

quarta-feira, março 25, 2009

The purity of senses
but impurity of feelings
arises cathartic.

Amidst the lesser activity
in which self is detachment
a sudden window through time 
opens up for this fresh breeze...

Staring at me, 
the hours, the days kept inside
all these months, all these years...
And there I am,
as all that nothing,
once something;
a sense of surrounding 
and the sense of abandonment
of that surrounding,
for something deeper 
and closer
to the knowledge 
of pain 
and its survival,
that new dawn
after that last curve 
of that last hill,
the imaterial place,
a strong undefined memory
that knows its truth,
that knows its reasons,
and that carries on,
as beautiful as the aesthetics
which lie beyond philosophy,
beyond the shelf that is home
in its social, strained sense.

The disguise wore off those nights,
mostly nights,
in which darkness was appeased
slowly as the moon shone
higher and higher,
the bright enigma of bleeding youth,
grains of sand...

Then, I was.
Today... when am I?
Which road am I on?

Recollection of scattered pieces
failing to form a mirror -
- the only reflection here.

And so one pretends that he's digging,
and forgets that to dig
is to drop off 
one's tools
and return,
and awake...
...free,
so to say.

(Although a shadow shall pass by
and something shall be lost
in translation...)

quinta-feira, março 19, 2009

Com tijolos se calceta a estrada da solidão.
- Trechos de perdição... -
- Frestas na emoção... -

Quem me dita a sua vã glória,
quem dela se vangloria
desta vez?

A nobreza morta não esconde o vermelho do sangue.
O pegajoso vermelho do sangue...
repisado pelo incauto caminhante,
para quem os tijolos são tijolos
até tropeçar neles.

Dói-me a voz do estar,
fala esquecida de uma já clássica peça
cujos panos caem à hora prevista.

O palco é coração agora quieto
onde vibra apenas essa mesma dôr quieta
de ele estar quieto.

Segura o nome da tragédia
a consciência furtiva,
calceteira
e cada vez mais
uma personagem mais
neste teatro e percepção
em que a lágrima se desinibe
contida,
em que o céu se pinta
côr cinzenta
(e não cinzento),
nódoa no quadro 
de pesados tijolos vermelhos

e alguns vultos incertos a passar,
surdos como qualquer sombra
ou som de passos em surdina.

Foi como foi.
O odôr a musgo
pintado a vermelho
num papel sem cheiro
e a vida a revelar
fotográfica
a vida por revelar

e os panos a cair
deste meta-teatro
doendo ainda.

E dói tanto,
tanto
...
tanto
...

E resta esta fútil tristeza
com a qual não sei bem o que fazer.
E de repente não sei de novo onde me enfiar,
sucessão sem tempo de linhas sem retribuição,
não-amôr espalmado e gordo
sem a paz das linhas
que definem o manuscrito

ou ao menos alguma novidade,
um pouco de ilusão sem noção de ilusão,
que me não recorde do dualismo real-abstracto.
Isto enquanto se prolonga já
uma menor ligação aos sentidos
desta noção de temática
menos e menos presente.

Das sombras se faz a vicissitude...
...e algures um fim de beco
côr de panos.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Entrei no hospital. Disse: "Fui atropelado." Internei-me em busca da liberdade. Quão estropiada se torna a missão de quem se nega à condução... O trânsito incontornável da capital dói como um embate frontal. Verificar a chapa... a dura periferia de tudo, o olhar apavorado que as mãos bem abertas não conseguem suster... O protocolo seguido pelas enfermeiras torna-se ele mesmo mecânico. Tudo é labirinto, beco, paredes. A paciência do ânimo fica-se por mais esta esquina. O corropio é um pavio que corrói (não só etimológicamente). Por onde me esgueirar com esta dôr? Para onde, se todos são lá no meio uns dos outros? Qual o ritual que abstraia da rotina, e que não seja vã à luz do espaço sem iluminação? 

Sociedade, dizem eles. Acredito. Sinto-me descabido. Um estereotipo qualquer aprisiona-me a alma desprendida do corpo, do ali da vida. Entre o mim e o nós há um meio passo, sempre um meio passo. Enfim... vou atravessando passadeiras, mecânicamente, enquanto respiro a poluição que não parece poder dissipar-se. Há uma grande ferida na atmosfera. Socorro-me do calôr que ela escorre, enquanto ponho de lado a esperança. O doutor passa-me umas receitas impessoais. Cai a noite como os panos intensamente mortos de uma peça. Espero, artificialmente.